terça-feira, 23 de setembro de 2014

encontros inesperados

Deixei o edifício perto das onze da noite a tentar escapar por entre as bátegas de água que inundaram a cidade. Desci a rua com dois dossiers debaixo de um braço a mala e o guarda-chuva no outro e ao primeiro olhar percebi que a não havia por ali quase ninguém.
Comecei a magicar na forma de tirar a chave para abrir o carro quando me cruzei com a rapariga da blusa verde. Vinha a arfar com a passada apressada e as coxas desenhadas pelas calças de ganga justa.
A certa altura ouvi um "não me desligues o telefone amor, peço-te por tudo". Acho que chorava. Mas andava apressada e o tom alternava entre a suplica e a fúria.
Já estava a chegar ao carro quando as ultimas palavras me chegaram aos ouvidos " eu não te estou a perseguir!" num berro furioso que encheu a rua toda.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

quero voar!

quando foi que perdemos a inocência, que deixamos de ver a magia à nossa volta, de captar os pormenores que tornam os nossos dias mais felizes? sorte a minha que posso reaver uns pozinhos dessa magia porque duas crianças vivem nesta casa.
hoje a mais pequena insistia que queria voar e voar e voar depois de o pai a ter pegado nos braços e simulado uma aterragem de avião.
haverá coisa melhor do que esta vontade insatisfeita de querer voar aos dois anos?!

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

quase setembro

e um recomeço na reta final do ano. mais uns dias e começam a chegar os meses de que mais gosto ao longo de todo o ano. primeiro é o verão que se despede (não sou uma pessoa de verão pronto), depois a chegada lenta mas definitiva do outono e das suas mil cores.

o marketing em agosto

Por vezes troco umas ideias sobre jardinagem com uma colega que tem um jardim-horta que é um luxo. E quando digo que é um luxo refiro-me à variedade, quantidade, aspecto e cuidado que ela coloca nos seus 300 m3 de legumes, frutas, arvores e arbustos que ali vivem.
A minha jardineira preferida com o seu ar impecável, é verdade que lhe invejo as unhas e os saltos (confesso já!) tem esta teoria fantástica para estimular toda  agente a criar a sua propria horta-jardim "convences duas ou três bloguers mais lidas a entrar nisto: as que cozinham, as que falam de moda, as que falam de bebés e de folhos, as que opinam sobre tudo e mais um par de botas e em três tempos toda a gente vai achar  que é muito importante  e muito in ter a sua própria horta, vais ver!"  Depois de esgrimirmos argumentos para umas boas gargalhadas pergunto-lhe como é que mantém as mãos e o verniz impecável, ao que me responde que é muito fácil, é só ter alguma disciplina e passar as unhas por sabão antes de ir remexer a terra.


 imagens avulsas da net mas é possível obter umas tão ou mais giras com as personagens cá de casa.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

a gordura essa peste da modernidade

diz-se por aí que estamos gordos, que os portugueses engordaram até à obesidade, ganharam direito a morrer das doenças dos ricos e que conseguiram esta proeza em plena crise. a minha tia, que é emigrante e só cá vem uma ou duas vezes por ano, já me tinha dito isto, numa tarde de praia na falésia, as duas sentadas na toalha a observar quem por la passava. há uns anos achei que era uma exagerada a minha tia que andava dada à beringela e à comida lavada de qualquer sabor.
mas agora é um tal rol de opiniões, de gente conhecida a chamar a atenção para o assunto e a proclamar que se rendeu à vida saudável, que agora só come sementes e assim que uma pessoa tem mesmo que acreditar.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

assuntos de capoeira

As duas galinhas velhas cacarejaram de satisfação quando viram a franga aproximar-se, impante e orgulhosa. Tinham uma lição para ensinar à novata, aquelas duas, e não iam perder a oportunidade por milho nenhum deste mundo.
Quando a outra se aproximou, num vestidinho elegante e demasiado justo a velha arreganhou o buço e disse à colega "pois eu cá nunca me neguei! Não houve uma noite em que o meu José tenha querido que eu não lhe tivesse dado. Umas vezes doente, outras farta, tão farta da vida e dos trabalhos que só queria era que me saísse de cima mas nunca lhe disse que não."
Ai eu cá não, contrapôs a outra galinha, a bem arranjada. Quando não me apetece digo-lhe logo que estou com dor de cabeça " ai filho, olha hoje estou muito cansada não pode ser, a gente logo ajusta isto". Uma pessoa também não pode andar sempre à vontade deles, disse para as duas a galinha velha bem arranjada.
Sempre gostou de pintar as unhas e de usar coisas bonitas e brilhantes. E para mais, descobrira há muito, que há muita maneira de levar os homens.
A franga riu-se sem dizer nada ostentando a sua condição de mulher moderna, de uma mundo já muito distante daquele que as galinhas velhas ainda falavam. Para ela, que havia pouco tempo fora viver uma relação assumida com um galo mais velho e bem posto na vida, nada naquele cacarejo fazia muito sentido. A vida com o seu galo mais velho e sedutor podia parecer estranha à capoeira mas ela escolhera assim.
"Eu cá nunca deixei que o meu Zé fosse procurar fora de casa por isso é que continuamos casados ao fim destes anos todos. Ainda hoje não me larga! Mas não se preocupe que os homens à segunda portam-se sempre bem. Fazem tudo pelas suas mulheres" disse-lhe a outra sorridente.
A franga estava a começar a esboçar um sorriso e a acreditar naquele comentário pateta até que a outra galinha velha desferiu o golpe final "pelo menos no primeiro ano".

quarta-feira, 16 de julho de 2014

um sonho tão simples

perfeitas para resolver um pedido de uma criança

a solidão dos outros

Abriu triunfante a porta do closet e olhou de lado para  a prima que seguia logo atrás. Queria apanhar-lhe a inveja na cara, regozijar-se com a frustração de não ter tudo  que ela tinha. A prima irmã com quem crescera sempre a chamar-lhe miúda mimada, um bocado mais velha, independente, a trabalhar como telefonista num hospital qualquer e a dormir com todos os médicos giros que lhe passavam à frente do guichet. Tantos anos a admira-la. Até no casamento a prima se lhe adiantara. Um traste divorciado, mais velho do que ela e com uma certa tendencia para beber e caçar. Mas isso que importava? A prima casara primeiro.
Mas um dia vingou-se. Encontrou um menino rico, apaixonado por ela, trabalhador, boa pessoa. Toda a gente gostava dele e ela apaixonou-se pelo príncipe encantado que viu nele. E lá foi viver para a sua casa enorme, com o seu enorme jardim e a sua enorme piscina. Os filhos chegaram rapidamente, vários, a pedido do marido que sempre gostou de famílias grandes. Ele próprio vinha de uma e, embora ela não gostasse especialmente da ideia, fez-lhe a vontade. Achou que podia ter uma bébé de sonho, depois outro e por fim ainda outro. Imaginava-se a deixar-se fotografar com os seus miúdos para uma dessas revistas que lia com avidez. Nada disso aconteceu mas ali estava a sua prima a adorar-lhe os vestidos caros."Vês este?Custou o dobro do que tu ganhas e nem imaginas o que já gastei na costureira", atirou-lhe e ela, a prima mais velha do que havia de se lembrar? "Olha lá tu estás gorda, precisas de te mexer."
Aquilo caiu-lhe como uma bofetada. Perdeu logo a vontade de lhe mostrar os vestidos caros e elegantes!
Evitou olhar para o espelho porque não queria encarar as ancas descomunais, a barriga que lhe crescera  demais com as gravidezes e o desleixo que deixou instalar-se na sua vida vazia. Sabia que o cabelo continuava impecável, a pele fresca e lisa, muito mais bonita do que a da prima que, de tanto se bronzear, envelhecera loucamente.
Naquele momento sentiu toda a solidão da sua vida, todas as noites em que esperara o seu príncipe, todas as compras que fizera em vão, os bolos e o pão que engolira frustrada.
O marido já não era um príncipe há muito, nunca fora apesar da sua fantasia. E contudo gostava dela à sua maneira, simples, clara e honesta. Era um homem trabalhador, embrenhado nos negócios da família, a fazer crescer a riqueza que herdara, a aventurar-se em mais um e outro investimento. Era um homem trabalhador mas ausente, desligara-se das infantilidades dela e isso fazia-a correr para a mãe uma e outra vez, deixar-lhe os filhos, esperar que ela lhe arranjasse o prato.
Era isso que a prima não lhe perdoava, acabava de perceber. Que ela pudesse ser menina outra vez, aos 40 anos, mesmo gorda e desleixada.
Pelo menos tinha isso para lhe esfregar na cara bronzeada e envelhecida.
Desceram as duas, sentaram-se perto da piscina enorme onde os miúdos gritavam alegres como elas tinham feito quando eram exactamente da mesma idade.
Naquele tempo não se sentiam sozinhas. Não havia aquela distancia toda para vencer. Quando se despediu da prima percebeu que já estavam de costas voltadas. Podiam sentar-se lado a lado na ceia de natal, mas nunca mais falariam sem segredos e sem vergonhas. E isso foi ainda pior do que toda a desilusão que conhecera no seu castelo de príncipes e princesas.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

um país fechado

parece que é fácil desactivar um país. em poucos anos fecharam-se finanças, correios, centros de saúde e escolas um pouco por todo o lado. como se uns quantos tivessem decidido varrer o território desde o recanto mais a noroeste até à ponta de Sagres. a pretexto da redução da divida, reduz-se a vida em mais de metade do território nacional. o mote da reforma serve para justificar todo o tipo de atropelos aos mais desprotegidos. não há, neste bando de gente que nos desgoverna, um pingo de bom senso, de sensibilidade, de capacidade de ver além das contas de mercearia em que se especializaram. os velhos acantonados nas aldeias e nos lugarejos sem recursos hão-de perecer no inverno mais próximo, as crianças hão-de aprender matemática e português nas muitas viagens a caminho da escola. e mais vale fechar já os deficientes numa cave, assim como assim não produzem nada e custam muito dinheiro aos vários ministérios.
e porque não exportar estas inovações para outros países que se auto-proclamam desenvolvidos?


sexta-feira, 13 de junho de 2014

os filhos na arena

parece que se tornou interessante dizer mal dos filhos, esses pequenos monstros, da família, da rotina, da falta de espaço individual neste imenso labirinto que é a parentalidade.
 há registos para todos os gostos, o que inclui blogues, livros, artigos de fundo, artigos de opinião, piadas em espectáculos, etc, discursos à medida que começam na piadola iníqua, continuam nas descrições pormenorizadas da intimidade dos miúdos (pequenos e graúdos) e vão à reportagem sobre a importância desse bem raro em que a criança se tornou.

causa-me tanto asco o paizinho que grita no futebol "vai-me a ele seu filho da puta!" ordenando ao filhinho que corra, como o intelectualoide que chama porquinhos aos filhos, referindo-se à sua dificuldade em dormir e aos dramas interiores que lhe causa o tempo roubado à leitura e ao pensamento por ter que levar a prole à escola, os que contam despudoradamente sobre os amores e as birras dos adolescentes ou os que se espraiam á vontade na descrição dos vestidos e das risquinhas.
nada me encanta neste escalpelizar da parentalidade como se de um enorme sacrifício se tratasse, como se os que decidem ter filhos tivessem algum sentido de dever e de missão superior ao dos outros.
em tudo isto só vejo a coisificação pornográfica dos filhos como se pari-los, cria-los, ampara-los nos desse um certificado de posse sobre eles.

retratos

é uma miúda pobre, grosseira mas bem intencionada. criada pela violência, pela negligencia, pela miséria - amigas de sempre como se sabe.
não completou ainda 25 anos, já pariu o seu primeiro filho e a vida devolveu-lhe em socos todas as suas tentativas de se libertar da teia. os homens que lhe dormiram na cama bateram-lhe, deixaram-na como outros fizeram com sua mãe. o normal. diz que nunca deixará faltar nada ao seu menino, mas adivinha-se que ele crescerá nas mesmas malhas em que a mãe miúda ainda nem se tonou uma mulher. lida mal com a indiferença e os olhares de critica e de repulsa com que é brindada quando entrega o filho de manhã, no infantário. a criança já está rotulada pelas senhoritas que gostam de se passear  de doutoras nos bairros pobres e desfavorecidos.
 mas não sabe repor a dignidade que lhe roubam, não tem outras armas além da raiva e da língua afiada, perde a razão. perde a cabeça.
quando se vê acossada pela forme e pela falta de tudo vende o corpo. fá-lo só em caso de extrema necessidade mas não perde mais tempo a pensar nisso. e gosta de dançar. às vezes deixa-se ir pela musica, o corpo e o cabelo de cigana soltam-se-lhe como se já não fossem seus.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

do outro lado do espelho

A vida ainda é melhor do que qualquer ficção e poder assistir ao vivo e a cores é o maior dos privilégios. Por vezes esqueço-me disso, é certo, mas não deixo de estar profundamente grata, emocionada e totalmente envolvida com esta maravilhosa sucessão de acontecimentos. Pode acontecer que não ache esta sucessão de acontecimentos passível de ser publicada, reduzida a fotografias e títulos exclamados.
Nos dias que correm poucas coisas me parecem mais insólitas que este ritual de interromper a vida para tirar a fotografia da praxe, que vai direitinha para o face book acompanhada de seu comentário descritivo como "momentos únicos", " em família", "isto é que é vida" e outras pérolas originais logo marcadas com muitos "gosto" e afins. Desconfio que anda por aí muita gentinha a viver só para o momento do clic e para os "gostos" e comentários que se seguem. Esgotado esse momento é ver tudo a voltar à realidade triste e enfadonha. Apagam-se os sorrisos e os ares de felicidade assim que se desliga a câmara, uma transformação radical.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

resoluções

Afinal não me deixei ficar presa nas malhas da abstenção. Parece que foi esmagadora, que ganhou a todos os partidos e movimentos nestas europeias 2014. Foi um acaso, não porque não tenha muito respeito pelas mulheres que lutaram para que todas possamos votar, não porque esteja divorciada do sistema partidario-politico, ou mesmo porque o tempo estava optimo para ir fazer muitas outras coisas importantes. Que estava!
E foi por acaso que decidi não alinhar mais nesta trapaça do voto útil, do voto que serve a alternância, que favorece os de sempre. Por acaso tropecei nesta certeza: não pode haver pensamentos únicos, resoluções universais, não pode tolerar-se quem se alimenta da ignorância e do medo dos outros.
O acaso é agora e agora é tempo de perder o medo.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

sem opção à vista


há dias assim, tudo o que é preciso fazer é cerrar os dentes, levantar a cabeça e continuar a caminhada.o turbilhão tenderá a desaparecer, eventualmente mais depressa do que podemos supor. só é preciso resistir por um bocadinho.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

virtualidades

Quanto mais fácil é escancarar o dia-a-dia, por a alma e o pensamento a secar nas cordas da rede social, à espera do olho guloso do outro, mais depressa fecho a porta. Não é que não me sirva, a dita, alguns propósitos bem intencionados, mas nunca me substituirá um amigo, um encontro, uma dose dura e exigente de realidade.
É certo que consigo chegar, em poucos segundos ao outro lado do mundo, ao norte do país, ou às fotografias fantásticas dos cavalos e dos lobos que adoro. O que, convenhamos, não é coisa que se possa ignorar.

maio escreve-se com ervilhas de cheiro e cravinas

um perfume suave mas persistente. a explosão de cor. o casamento perfeito e informal entre as ervilhas de cheiro, as cravinas e a alfazema.






olhar para o outro lado por entre as flores desta jovem árvore. os miúdos querem uma só deles. é uma ideia fantástica. tem que ser especial a árvore que vai ser só do João e da Beatriz. vamos pendurar-lhe casinhas de pássaros pintadas por eles. e vamos vê-los crescer juntos.





No ano em que cheguei aos 40 as rosas recompensaram-me os cuidados, a paciência e a espera. Não sei se será um prenuncio.






domingo, 30 de março de 2014

desistir? nunca na vida!

Apresentou-se-me hesitante, a escolher as palavras, cautelosa, numa primeira impressão que está longe, muito longe, de fazer justiça a esta magnifica mulher que tive a honra de conhecer.
Descobri-a pouco a pouco, ao longo dos dias, se calhar só no exacto ritmo com que ela escolheu desvendar-se. Diz-se que depois dos 40 as mulheres mandam na vida delas. E antes não?
Depois percebo-a: a vida pulsa-lhe em todos os poros, em cada sorriso, em cada amabilidade que escolhe como forma de estar.
Foi mãe muito cedo, habituou-se a dormir pouco, a trabalhar muito, a estudar nos intervalos que o quotidiano lhe proporcionou. Primeiro o ensino secundário no recorrente, à noite, começado numa turma gigante de gente jovem, alheada, dispersa. Resistiu  e concluiu com mais dois.
Depois o superior, à noite, com a rotina dos dias a pesar-lhe nos ombros e nos olhos, as poucas horas de sono a tornar hercúleas as tarefas mais simples.
Não se pode ignorar uma força assim, uma alma grandiosa, tenaz e capaz dos maiores sacrifícios em nome do amor: aos outros e por si.
Disse-me que os filhos não gostam, nunca gostaram da escola. Não percebe porquê, ela que fez tudo o que podia e não podia para chegar tão longe quanto possível. Faz um sacrifício enorme para os ajudar, pelo menos no cumprimento da escolaridade obrigatória. Depois acabou, diz que não os chateará mais. Deposita esperanças no mais novo, uma criança prendada, a cumprir os primeiros anos de escolaridade, cooperante, fácil e animado.
Nem uma réstia de critica nesta conversa, apenas uma constatação resignada de quem se habituou a respeitar os filhos como são. Ela porém não se acomoda, não se deixa vencer pelas dores que lhe comem o corpo, nem pelas dificuldades de uma vida diária para gerir.

segunda-feira, 3 de março de 2014

à espera da primavera


alguns narcisos venceram as dificuldades e aí estão, no meu canteiro, pintando de amarelo a modorra deste inverno que se prolonga  há demasiado tempo.
as tulipas estão atrasadíssimas mas as frésias já começaram a florir. primeiro as brancas, as amarelas e as vermelhas que nos brindarão mais tarde, com a sua beleza.