quarta-feira, 16 de Julho de 2014

um sonho tão simples

perfeitas para resolver um pedido de uma criança

a solidão dos outros

Abriu triunfante a porta do closet e olhou de lado para  a prima que seguia logo atrás. Queria apanhar-lhe a inveja na cara, regozijar-se com a frustração de não ter tudo  que ela tinha. A prima irmã com quem crescera sempre a chamar-lhe miúda mimada, um bocado mais velha, independente, a trabalhar como telefonista num hospital qualquer e a dormir com todos os médicos giros que lhe passavam à frente do guichet. Tantos anos a admira-la. Até no casamento a prima se lhe adiantara. Um traste divorciado, mais velho do que ela e com uma certa tendencia para beber e caçar. Mas isso que importava? A prima casara primeiro.
Mas um dia vingou-se. Encontrou um menino rico, apaixonado por ela, trabalhador, boa pessoa. Toda a gente gostava dele e ela apaixonou-se pelo príncipe encantado que viu nele. E lá foi viver para a sua casa enorme, com o seu enorme jardim e a sua enorme piscina. Os filhos chegaram rapidamente, vários, a pedido do marido que sempre gostou de famílias grandes. Ele próprio vinha de uma e, embora ela não gostasse especialmente da ideia, fez-lhe a vontade. Achou que podia ter uma bébé de sonho, depois outro e por fim ainda outro. Imaginava-se a deixar-se fotografar com os seus miúdos para uma dessas revistas que lia com avidez. Nada disso aconteceu mas ali estava a sua prima a adorar-lhe os vestidos caros."Vês este?Custou o dobro do que tu ganhas e nem imaginas o que já gastei na costureira", atirou-lhe e ela, a prima mais velha do que havia de se lembrar? "Olha lá tu estás gorda, precisas de te mexer."
Aquilo caiu-lhe como uma bofetada. Perdeu logo a vontade de lhe mostrar os vestidos caros e elegantes!
Evitou olhar para o espelho porque não queria encarar as ancas descomunais, a barriga que lhe crescera  demais com as gravidezes e o desleixo que deixou instalar-se na sua vida vazia. Sabia que o cabelo continuava impecável, a pele fresca e lisa, muito mais bonita do que a da prima que, de tanto se bronzear, envelhecera loucamente.
Naquele momento sentiu toda a solidão da sua vida, todas as noites em que esperara o seu príncipe, todas as compras que fizera em vão, os bolos e o pão que engolira frustrada.
O marido já não era um príncipe há muito, nunca fora apesar da sua fantasia. E contudo gostava dela à sua maneira, simples, clara e honesta. Era um homem trabalhador, embrenhado nos negócios da família, a fazer crescer a riqueza que herdara, a aventurar-se em mais um e outro investimento. Era um homem trabalhador mas ausente, desligara-se das infantilidades dela e isso fazia-a correr para a mãe uma e outra vez, deixar-lhe os filhos, esperar que ela lhe arranjasse o prato.
Era isso que a prima não lhe perdoava, acabava de perceber. Que ela pudesse ser menina outra vez, aos 40 anos, mesmo gorda e desleixada.
Pelo menos tinha isso para lhe esfregar na cara bronzeada e envelhecida.
Desceram as duas, sentaram-se perto da piscina enorme onde os miúdos gritavam alegres como elas tinham feito quando eram exactamente da mesma idade.
Naquele tempo não se sentiam sozinhas. Não havia aquela distancia toda para vencer. Quando se despediu da prima percebeu que já estavam de costas voltadas. Podiam sentar-se lado a lado na ceia de natal, mas nunca mais falariam sem segredos e sem vergonhas. E isso foi ainda pior do que toda a desilusão que conhecera no seu castelo de príncipes e princesas.

segunda-feira, 30 de Junho de 2014

um país fechado

parece que é fácil desactivar um país. em poucos anos fecharam-se finanças, correios, centros de saúde e escolas um pouco por todo o lado. como se uns quantos tivessem decidido varrer o território desde o recanto mais a noroeste até à ponta de Sagres. a pretexto da redução da divida, reduz-se a vida em mais de metade do território nacional. o mote da reforma serve para justificar todo o tipo de atropelos aos mais desprotegidos. não há, neste bando de gente que nos desgoverna, um pingo de bom senso, de sensibilidade, de capacidade de ver além das contas de mercearia em que se especializaram. os velhos acantonados nas aldeias e nos lugarejos sem recursos hão-de perecer no inverno mais próximo, as crianças hão-de aprender matemática e português nas muitas viagens a caminho da escola. e mais vale fechar já os deficientes numa cave, assim como assim não produzem nada e custam muito dinheiro aos vários ministérios.
e porque não exportar estas inovações para outros países que se auto-proclamam desenvolvidos?


sexta-feira, 13 de Junho de 2014

os filhos na arena

parece que se tornou interessante dizer mal dos filhos, esses pequenos monstros, da família, da rotina, da falta de espaço individual neste imenso labirinto que é a parentalidade.
 há registos para todos os gostos, o que inclui blogues, livros, artigos de fundo, artigos de opinião, piadas em espectáculos, etc, discursos à medida que começam na piadola iníqua, continuam nas descrições pormenorizadas da intimidade dos miúdos (pequenos e graúdos) e vão à reportagem sobre a importância desse bem raro em que a criança se tornou.

causa-me tanto asco o paizinho que grita no futebol "vai-me a ele seu filho da puta!" ordenando ao filhinho que corra, como o intelectualoide que chama porquinhos aos filhos, referindo-se à sua dificuldade em dormir e aos dramas interiores que lhe causa o tempo roubado à leitura e ao pensamento por ter que levar a prole à escola, os que contam despudoradamente sobre os amores e as birras dos adolescentes ou os que se espraiam á vontade na descrição dos vestidos e das risquinhas.
nada me encanta neste escalpelizar da parentalidade como se de um enorme sacrifício se tratasse, como se os que decidem ter filhos tivessem algum sentido de dever e de missão superior ao dos outros.
em tudo isto só vejo a coisificação pornográfica dos filhos como se pari-los, cria-los, ampara-los nos desse um certificado de posse sobre eles.

retratos

é uma miúda pobre, grosseira mas bem intencionada. criada pela violência, pela negligencia, pela miséria - amigas de sempre como se sabe.
não completou ainda 25 anos, já pariu o seu primeiro filho e a vida devolveu-lhe em socos todas as suas tentativas de se libertar da teia. os homens que lhe dormiram na cama bateram-lhe, deixaram-na como outros fizeram com sua mãe. o normal. diz que nunca deixará faltar nada ao seu menino, mas adivinha-se que ele crescerá nas mesmas malhas em que a mãe miúda ainda nem se tonou uma mulher. lida mal com a indiferença e os olhares de critica e de repulsa com que é brindada quando entrega o filho de manhã, no infantário. a criança já está rotulada pelas senhoritas que gostam de se passear  de doutoras nos bairros pobres e desfavorecidos.
 mas não sabe repor a dignidade que lhe roubam, não tem outras armas além da raiva e da língua afiada, perde a razão. perde a cabeça.
quando se vê acossada pela forme e pela falta de tudo vende o corpo. fá-lo só em caso de extrema necessidade mas não perde mais tempo a pensar nisso. e gosta de dançar. às vezes deixa-se ir pela musica, o corpo e o cabelo de cigana soltam-se-lhe como se já não fossem seus.

quarta-feira, 11 de Junho de 2014

do outro lado do espelho

A vida ainda é melhor do que qualquer ficção e poder assistir ao vivo e a cores é o maior dos privilégios. Por vezes esqueço-me disso, é certo, mas não deixo de estar profundamente grata, emocionada e totalmente envolvida com esta maravilhosa sucessão de acontecimentos. Pode acontecer que não ache esta sucessão de acontecimentos passível de ser publicada, reduzida a fotografias e títulos exclamados.
Nos dias que correm poucas coisas me parecem mais insólitas que este ritual de interromper a vida para tirar a fotografia da praxe, que vai direitinha para o face book acompanhada de seu comentário descritivo como "momentos únicos", " em família", "isto é que é vida" e outras pérolas originais logo marcadas com muitos "gosto" e afins. Desconfio que anda por aí muita gentinha a viver só para o momento do clic e para os "gostos" e comentários que se seguem. Esgotado esse momento é ver tudo a voltar à realidade triste e enfadonha. Apagam-se os sorrisos e os ares de felicidade assim que se desliga a câmara, uma transformação radical.

segunda-feira, 26 de Maio de 2014

resoluções

Afinal não me deixei ficar presa nas malhas da abstenção. Parece que foi esmagadora, que ganhou a todos os partidos e movimentos nestas europeias 2014. Foi um acaso, não porque não tenha muito respeito pelas mulheres que lutaram para que todas possamos votar, não porque esteja divorciada do sistema partidario-politico, ou mesmo porque o tempo estava optimo para ir fazer muitas outras coisas importantes. Que estava!
E foi por acaso que decidi não alinhar mais nesta trapaça do voto útil, do voto que serve a alternância, que favorece os de sempre. Por acaso tropecei nesta certeza: não pode haver pensamentos únicos, resoluções universais, não pode tolerar-se quem se alimenta da ignorância e do medo dos outros.
O acaso é agora e agora é tempo de perder o medo.

segunda-feira, 19 de Maio de 2014

sem opção à vista


há dias assim, tudo o que é preciso fazer é cerrar os dentes, levantar a cabeça e continuar a caminhada.o turbilhão tenderá a desaparecer, eventualmente mais depressa do que podemos supor. só é preciso resistir por um bocadinho.

sexta-feira, 16 de Maio de 2014

virtualidades

Quanto mais fácil é escancarar o dia-a-dia, por a alma e o pensamento a secar nas cordas da rede social, à espera do olho guloso do outro, mais depressa fecho a porta. Não é que não me sirva, a dita, alguns propósitos bem intencionados, mas nunca me substituirá um amigo, um encontro, uma dose dura e exigente de realidade.
É certo que consigo chegar, em poucos segundos ao outro lado do mundo, ao norte do país, ou às fotografias fantásticas dos cavalos e dos lobos que adoro. O que, convenhamos, não é coisa que se possa ignorar.

maio escreve-se com ervilhas de cheiro e cravinas

um perfume suave mas persistente. a explosão de cor. o casamento perfeito e informal entre as ervilhas de cheiro, as cravinas e a alfazema.






olhar para o outro lado por entre as flores desta jovem árvore. os miúdos querem uma só deles. é uma ideia fantástica. tem que ser especial a árvore que vai ser só do João e da Beatriz. vamos pendurar-lhe casinhas de pássaros pintadas por eles. e vamos vê-los crescer juntos.





No ano em que cheguei aos 40 as rosas recompensaram-me os cuidados, a paciência e a espera. Não sei se será um prenuncio.






domingo, 30 de Março de 2014

desistir? nunca na vida!

Apresentou-se-me hesitante, a escolher as palavras, cautelosa, numa primeira impressão que está longe, muito longe, de fazer justiça a esta magnifica mulher que tive a honra de conhecer.
Descobri-a pouco a pouco, ao longo dos dias, se calhar só no exacto ritmo com que ela escolheu desvendar-se. Diz-se que depois dos 40 as mulheres mandam na vida delas. E antes não?
Depois percebo-a: a vida pulsa-lhe em todos os poros, em cada sorriso, em cada amabilidade que escolhe como forma de estar.
Foi mãe muito cedo, habituou-se a dormir pouco, a trabalhar muito, a estudar nos intervalos que o quotidiano lhe proporcionou. Primeiro o ensino secundário no recorrente, à noite, começado numa turma gigante de gente jovem, alheada, dispersa. Resistiu  e concluiu com mais dois.
Depois o superior, à noite, com a rotina dos dias a pesar-lhe nos ombros e nos olhos, as poucas horas de sono a tornar hercúleas as tarefas mais simples.
Não se pode ignorar uma força assim, uma alma grandiosa, tenaz e capaz dos maiores sacrifícios em nome do amor: aos outros e por si.
Disse-me que os filhos não gostam, nunca gostaram da escola. Não percebe porquê, ela que fez tudo o que podia e não podia para chegar tão longe quanto possível. Faz um sacrifício enorme para os ajudar, pelo menos no cumprimento da escolaridade obrigatória. Depois acabou, diz que não os chateará mais. Deposita esperanças no mais novo, uma criança prendada, a cumprir os primeiros anos de escolaridade, cooperante, fácil e animado.
Nem uma réstia de critica nesta conversa, apenas uma constatação resignada de quem se habituou a respeitar os filhos como são. Ela porém não se acomoda, não se deixa vencer pelas dores que lhe comem o corpo, nem pelas dificuldades de uma vida diária para gerir.

segunda-feira, 3 de Março de 2014

à espera da primavera


alguns narcisos venceram as dificuldades e aí estão, no meu canteiro, pintando de amarelo a modorra deste inverno que se prolonga  há demasiado tempo.
as tulipas estão atrasadíssimas mas as frésias já começaram a florir. primeiro as brancas, as amarelas e as vermelhas que nos brindarão mais tarde, com a sua beleza.

sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2014

raras

28 de Fevereiro é o Dia das Doenças Raras.

Como em tudo, a existência de um dia dedicado ao assunto não altera em nada a vida das pessoas que vivem com doenças raras e/ou raríssimas mas pode ser que ajude a sensibilizar os que nunca tiveram que se preocupar com tal coisa. Pode ser, sejamos positivos.

Em todo o caso vale a pena lembrar que a normalidade é apenas aquilo com que nos habituamos a viver. Não há apenas uma ou duas. Ao nosso lado existem milhares de mundos, de vivências e de contingencias a viver o seu dia-a-dia. Ainda bem!
Conhecer esses mundos, viver num deles obriga-nos a estar mais atentos aos outros, a alegrarmo-nos com as alegrias e as conquistas dos outros e a entristecer profundamente com as suas dificuldades, a sua morte.
Quando é que pude imaginar que sofreria porque uma criança de 5 anos morreu, muito longe de mim, mas com a mesma rara que tenho em casa?  Ou que me alegraria porque um outro recuperou e outro tem um sorriso lindo e gosta tanto de cavalos?
Afinal a normalidade é apenas o nosso dia-a-dia.





quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2014

terapia


 
Vamos ver se me inspiro nestas imagens de hortas/jardins e se consigo fazer alguma coisa da grande confusão que é o meu projecto de horta.

quarta-feira, 29 de Janeiro de 2014

o lugar dos livros




que inspiração para a organização do espaço interior. notas para um futuro próximo.

o resumo dos dias

Calças de ganga com buracos, a cair pelo rabo abaixo e usadas com saltos altos em corpos magros e cabeçudos é para mim uma imagem da falta de estética e de individualidade dos nossos dias. Haverá coisa mais feia?
(well, ...)

A receitinha que leva sementes e bagas (já não há nada que não leve estas inovações gastronómicas) como se já ninguém soubesse cozinhar, nem ser feliz e saudável sem usar estes venenos no seu dia-a-dia. Já se lembraram que a maioria das sementes concentram quantidades brutais de químicos e de toda a porcaria com que trataram as plantas? Já se perguntaram de onde vêm esses pequenos milagres de saúde e beleza?
Não é que eu não goste de um pãozinho com sementes, ou de adicionar uns mirtilos a um iogurte mas daí a convencer-me que, se não comer isto todos os dias e em substituição do que sempre me habituei a comer, não serei gira e saudável e mimimi aos 50 vai um mundo.

Por  estes dias vejo pouca televisão mas não deixo de ouvir todo o mundo a falar das praxes e das atrocidades que se cometem no aconchego desse mundo fechado que é instituição académica (universidade ou politécnico; publica ou privada, velha ou nova, tanto faz). Haverá mesmo assim tanto para elaborar? Criminalize-se já este tipo de abuso sobre outros incautos e indefesos e está o assunto resolvido. Ai espera aí, não há coragem para enfrentar a tradição instalada (tradição inventada à medida dos abusadores mas pronto serve tudo...)


sábado, 25 de Janeiro de 2014

as tropelias dos senhoritos do CDS

 Anda por aí uma gentinha a dizer alarvidades como se de uma revelação se tratasse. Sobre uma delas (a diminuição da escolaridade obrigatória, Pacheco Pereira já lhes chegou a roupa ao pelo: uma escravatura civilizada. E bem.

O chorrilho de disparates que sai daquelas mentes inaptas deveria ser julgado criminalmente e o mal que estão a causar a tantos portugueses devidamente ressarcido.

o tempo do tudo ou nada

e assim chegamos ao tempo em que só há dois lados: ou és uma destas pessoas cuja vida se mudou para a realidade virtual ou estás do outro lado da barricada recusando utilizar qualquer uma dessas tecnologias invasivas e dominadoras que agora pululam por todo o lado.
De um lado os que se desnudam nas redes, nos blogues, nos emails, os que encaixam o dia-a-dia entre teclas, bites e gostos.
Do outro os que recusam essa mesma realidade com medo de perderem a sua liberdade e campo de manobra.
Entre uns e outros não há espaço para meios-termos como se não fosse possível outra forma de estar que não implique a total adesão ou a recusa definitiva.
Há quem profetize que a intimidade acabou e quem nunca se tenha sentido tão acompanhado nesta aldeia em que vivemos todos.
Enfim...de uma forma ou de outra é bem provável que nunca tenhamos tido tão pouca escolha como agora.

quarta-feira, 8 de Janeiro de 2014

como a minha mãe

Nem ouvi bem o inicio da conversa porque estava completamente concentrada no vermelho luminoso do casaco CH que ela trazia. Há qualquer coisa nesta cor que me atrai.
A dada altura ouvi-a falar da mãe e prestei-lhe atenção porque a mãe dela morreu há muito tempo. Acho que há tanto tempo como a minha.
Diz que agora que chegou aos quarenta, que vida lhe corre bem, está exactamente no ponto em que estava a mãe dela com a mesma idade, os filhos a chegar à adolescência, a situação económica da família remediada mas sem direito a luxos. Ora a minha amiga é uma mulher de garra, trabalha loucamente, é bem sucedida profissionalmente, tem dois miúdos amorosos daqueles que parecem saídos das revistas e até o marido é um charme. Às vezes tenho que a evitar para me impedir de a detestar por tudo lhe correr tão bem.
Ela sabe.
Suponho que é por isso que me conta este episódio rocambolesco em que a mãe dela, depois de uma discussão feia com o pai, lhe confidencia que um dia, quando ela for crescida e bem sucedida irão viver as duas. Quando esse momento chegar vai conseguir deixar o homem que a tortura com a sua personalidade dominante, violenta e provocadora.
Não percebes? Eu ainda era uma pré adolescente e disse à minha mãe para deixar o meu pai e ela, coitada, que não ganhava o seu próprio dinheiro e tinha três filhos para criar, disse-me que um dia faria isso.
Bem e em que medida é a tua vida assim tão parecida com a da tua mãe neste exacto momento?, perguntei-lhe isto para não chegarmos as duas ao momento da conversa em que nos recordamos que as nossas mães morreram num acidente violento.
E assim a minha querida e odiada amiga partilhou comigo o vazio em que a sua vida se tornou, diz-me que se sente apanhada numa armadilha que lhe traga toda a energia, qualquer réstia de individualidade e de liberdade a que possa aspirar. Conta-me que já não pode ficar com o pai dos seus filhos mas que não se imagina a priva-los de crescerem com ele, que está em piloto-automático, que a vida de todos os dias é uma sucessão interminável de tarefas que a fazem correr que nem uma doida mas apenas isso.
Desvio os olhos para o casaco. Porque diabo me lembrei da Virgínia Wolf?
Despedimo-nos com um único beijo, cabisbaixas. Aqui jaz a minha esperança na revolução doméstica.